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Edição Especial

Francisco Duda: mercado reflete melhora estrutural da economia

Em entrevista ao Boletim Técnico de Debêntures, o novo presidente do Comitê de Valores Mobiliários da ANDIMA, Francisco Claudio Duda, diretor de Mercado de Capitais do BB Banco de Investimento, fala sobre as prioridades de sua gestão e o fôlego apresentado pelo mercado de capitais brasileiro nos últimos anos: "Não é um movimento conjuntural, mas estrutural. Veio para ficar", afirma.

Em sua avaliação, o bom desempenho do mercado de capitais brasileiro nos últimos dois anos é um fenômeno passageiro ou sinaliza, de fato, uma trajetória sustentável de crescimento, que resultaria em aumento do interesse das empresas por esse mercado?

O comportamento do mercado de capitais reflete uma nova e, em minha opinião, duradoura fase da economia brasileira. Os fundamentos econômicos evoluíram bastante nos últimos anos, se solidificaram e estamos agora em uma fase de consolidação. Tais mudanças trouxeram maior previsibilidade e transparência às decisões empresariais, além de significativa redução nos custos de captação de recursos. E tudo isso viabilizou o desenvolvimento do mercado de capitais brasileiro, pois o tornou muito mais atraente, tanto para as empresas emissoras, no que diz respeito à oferta, quanto para os investidores, no que toca à demanda.

Logo, entendo que o movimento não é conjuntural, mas sim estrutural, isto é, veio para ficar. Em diversos setores, as empresas brasileiras já deram demonstrações de que enxergam o mercado de capitais como uma fonte de captação de recursos muito importante. Isto vem ocorrendo de forma mais sistemática com as grandes empresas, mas a tendência é de que as médias também demandem esses produtos no futuro. Ademais, numa economia em crescimento, é natural que as médias empresas de hoje sejam as grandes empresas de amanhã. Por isso, creio que há um espaço significativo para o crescimento sustentado do mercado de capitais brasileiro.

Apesar da expansão significativa do número e volume de emissões, o mercado secundário de dívida corporativa ainda é incipiente. É possível mudar esse quadro? Nesse sentido, como avalia o trabalho da ANDIMA relacionado à padronização e precificação de debêntures?

Creio que esse quadro tende a se modificar gradativamente. Hoje, os maiores compradores de títulos de renda fixa são investidores institucionais locais que apresentam um certo excesso de liquidez, por um lado, e, por outro, têm incentivo a manter esses papéis encarteirados até seu vencimento, com o objetivo de maximizar a rentabilidade das carteiras geridas.

A lógica desse processo é orientada pela configuração da curva da taxa de juros. Diante da expectativa dos agentes de continuidade da queda gradual das taxas de juros de longo prazo, os títulos emitidos pelas empresas e encarteirados hoje tendem a assegurar um retorno maior do que o de mercado no futuro, o que contribui para melhorar sensivelmente a performance das carteiras administradas. É por conta disso que há poucos vendedores no mercado, desequilibrando a relação entre oferta e demanda, e limitando o desenvolvimento de um mercado secundário de dívida mais ativo, pelo menos por enquanto.

Este fenômeno acontece tipicamente com fundos de pensão, fundos de previdência, assets e seguradoras. Contudo, nos próximos anos, sobretudo em um ambiente de investment grade, outros players com perfil diferenciado passarão a atuar no mercado de capitais local com maior intensidade, a exemplo do que já ocorre em outros países. Creio que a ANDIMA terá papel fundamental nesse cenário, liderando a organização do mercado em transformação, fomentando a padronização dos ativos e instrumentos e evoluindo ainda mais em sistemas de negociação e precificação, de modo a proporcionar e ampliar a liquidez, eficiência, segurança e transparência desse mercado.

Quais serão, em linhas gerais, as prioridades do Comitê de Valores Mobiliários na sua gestão?

O Comitê dará continuidade aos trabalhos que vêm sendo desenvolvidos no sentido de estimular as melhores práticas entre os participantes do mercado nas áreas de padronização e precificação de ativos, além de incentivar a criação de novos produtos. O mercado está não apenas em crescimento, mas também em transformação. Creio que um dos papéis da ANDIMA é o de antecipar essas tendências e movimentos e ajudar o mercado a se preparar adequadamente para o novo cenário.


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