Crise testará cultura da estabilidade no Brasil
Em outubro de 2007, quando organizou em São Paulo o 2º Seminário Internacional sobre Renda Fixa em Mercado de Balcão, a ANDIMA convidou, entre outros renomados especialistas, o professor Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia, nos EUA, para analisar os reflexos da conjuntura internacional sobre as taxas de juros brasileiras. Logo na abertura de sua palestra, Eichengreen lembrou, bem-humorado, que o convite lhe havia sido feito em junho, exatos dois meses antes da eclosão da crise do subprime, o que o levava a supor que a Associação possuiria uma “bola de cristal”. Agora, um ano após o início da turbulência, a ANDIMA solicitou ao professor uma nova análise da crise internacional e de seus impactos sobre o Brasil. A seguir, os comentários de Eichengreen.
Mantenho a previsão feita na minha palestra na ANDIMA no ano passado – creio que essas previsões resistiram relativamente bem. Nos EUA, houve duas surpresas em 2008. A primeira foi que ambas as crises, a dos bancos e a do crédito, foram mais duras do que todo mundo, inclusive eu, tinha previsto, especialmente após a desastrosa decisão do Tesouro norte-americano e do Federal Reserve de deixar quebrar o Lehman Brothers em setembro. A segunda surpresa foi que a economia norte-americana não se contraiu tão rapidamente como era esperado, considerando esses perturbadores fatos acontecidos com o crédito. Concretamente, no terceiro trimestre de 2008, o PIB recuou um pouco. Mas foi uma queda leve e também o primeiro trimestre em que isto aconteceu, mais de um ano após o surgimento da crise das hipotecas subprime e dois anos após o começo da queda dos preços do mercado imobiliário. Um aspecto importante desta situação, na minha opinião, diz respeito ao aumento das exportações líquidas dos EUA. A indústria norte-americana continua indo muito bem, aumentando suas vendas ao exterior. Mas acredito que tal situação não deverá perdurar, pois agora a crise é global e o ritmo de atividade do resto do mundo começará a declinar. Minha previsão é de que a recessão nos EUA deverá estender-se por todo o ano de 2009 e que a recuperação começará somente em 2010.
Quais são as conseqüências que esse cenário terá no Brasil? Minha previsão para os mercados emergentes é a seguinte: consideremos um mercado emergente, qualquer um deles, e veremos que em 2009 ele crescerá apenas a metade do que cresceu em 2007. Para o Brasil, isto significa dizer que a taxa de crescimento cairá de aproximadamente 5,5% para prováveis 2,75%. Esse patamar não será suficiente para evitar que o desemprego aumente, dadas as características demográficas do país. É lamentável, porém inevitável, dado que os EUA, a Europa e o Japão estarão em recessão no próximo ano. Haverá uma importante redução na demanda para as exportações brasileiras, sejam aviões para rotas curtas, pneus para caminhões ou matérias-primas. Não haverá crises financeiras, em função da administração prudente da dívida, da sólida política monetária e das atuais linhas de swap em dólares do Federal Reserve. Mas haverá tensões e pressões sociais, políticas e econômicas. Este será o teste para saber se a nova cultura da estabilidade na economia e na política financeira brasileiras é profunda e estável.