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Máquina de compras 19/07/2010

Apesar de ter ultrapassado os limites de endividamento permitidos por seu estatuto social, a Cemig continua com planos de aquisições, seja de empresas em operação ou de novos empreendimentos como as hidrelétricas que vão ser leiloadas no dia 30.

Luiz Fernando Rolla, diretor financeiro da empresa, já fala na formação de um novo fundo de investimento em participações (FIP), o terceiro sob seu patrocínio, para aquisições e de captações no mercado externo para poder alongar sua dívida, já que hoje a empresa não tem como tomar empréstimos do BNDES.

No mercado financeiro, a Cemig já foi apelidada de "máquina de compras" depois de em curto espaço de tempo se comprometer com os investimentos na usina de Santo Antônio, adquirir a transmissora TBE e a Terna dos italianos e ainda comprar a participação de seus sócios na Light. Mas para levar adiante essa postura teve que pedir consentimento aos acionistas para ultrapassar os limites financeiros estabelecidos em seu estatuto.

Segundo o documento, a dívida da companhia não poderia ultrapassar 40% do lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (lajida).

Com o orçamento de investimentos e gastos previstos para este ano de mais de R$ 3 bilhões, a dívida chegará a 83% desse indicador operacional e por isso a empresa pediu em assembleia que os acionistas aprovassem um novo percentual, de 90%.

Tendo o Estado de Minas Gerais como sócio majoritário, com mais de 50% das ações com direito a voto, não foi difícil ter esse aval. Mesmo assim não contou com o apoio total de seus sócios. Alguns minoritários, principalmente fundos de investimentos estrangeiros se manifestaram contra o "perdão".
Essa não foi a primeira vez que a Cemig pede esse consentimento para seus investidores. Ano passado a companhia já havia pedido licença para ultrapassar os limites. De acordo com Rolla, havia a projeção de que o pagamento pela Light seria feito no ano passado, o que acabou não se concretizando. "E podemos fazer isso de novo [pedir consentimento] no próximo ano, se for para fazer frente a novas aquisições", disse Rolla.

A "alavancagem" da companhia, medida pela dívida líquida em relação ao lajida gira em torno duas vezes, o que é não é considerado alto. Mas a dívida bruta da companhia chega a R$ 11,8 bilhões e cerca de 75% vence em menos de cinco anos, de acordo com as notas explicativas que acompanham as demonstrações financeiras.

A própria emissão de R$ 2,7 bilhões de debêntures que a empresa fez neste ano tem mais da metade com vencimento previsto para apenas dois anos. O grande entrave hoje da Cemig nas novas aquisições é não poder contar com os recursos do BNDES, a menos que tenha um sócio majoritário e privado.

O BNDES já está com seu limite para empréstimos ao setor público tomado e por isso a companhia não pode se financiar no banco. Esse foi um dos motivos que levou a empresa a procurar alternativas para as aquisições que fez. E a saída encontrada foi a formação de FIPs. Os fundos arrecadam recursos no mercado, principalmente de fundos de pensão, e entram na sociedade com a Cemig.
A primeira vez que a empresa usou essa estrutura foi para concretizar a compra da Terna com o FIP Coliseu. Sem um sócio privado, a dívida de cerca de R$ 1 bilhão da Terna com o BNDES teria que ser paga imediatamente. O mesmo foi feito com a Light, associando-se ao FIP Redentor, também patrocinado pela Cemig.

A questão é que esse patrocínio é calcado na garantia de uma rentabilidade mínima para os cotistas dos fundos. Além disso, a empresa se comprometeu a comprar a participação desses fundos nas empresas, em cinco anos, caso os cotistas queriam sair do investimento.

Para novas hidrelétricas, a companhia poderá ter recursos do BNDES nos projetos que estiverem cadastrados no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Mas, de qualquer forma, a empresa já pensa em financiamentos mais longos da dívida que já possui. O diretor financeiro da Cemig acaba de voltar de encontros com investidores asiáticos. "O prazo de cinco anos que conseguimos aqui no Brasil em debêntures não é suficiente. Queremos financiamentos de 10 ou 15 anos e para isso, no futuro, teremos que ir ao mercado internacional", disse Rolla. "E é por isso que temos que desde já começar a conversar com esses investidores."

A Cemig tem se valido de sua capacidade de geração de caixa. A companhia tem uma receita operacional por ano de quase R$ 12 bilhões. No primeiro trimestre deste ano, ela tinha em caixa R$ 4 bilhões. Mas, além de ultrapassar o limite financeiro estabelecido no estatuto, a empresa também descumpriu algumas cláusulas contratuais restritivas em seus empréstimos.

A companhia informou em suas notas explicativas que no fim de março sua dívida dividida pelo patrimônio líquido mais a dívida ultrapassou o limite de 53%. "A companhia obteve dos credores o consentimento de que não irão exercer seu direito de exigir os pagamentos imediatos ou antecipados dos montantes devidos até 31 de março de 2010. Os financiamentos estão classificados como passivo circulante e não circulante, de acordo com os termos originais do contrato, tendo em vista a obtenção do referido consentimento", informava a Cemig em seu resultado trimestral.

Imprimir o conteúdo Visualizar impressão Fonte: Valor Econômico - Josette Goulart
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